A Pequena Miss Dinamite – Tribuna do Norte

A Pequena Miss Dinamite – Tribuna do Norte
Publicado em 11/12/2024 às 2:17

Alex Medeiros
@alexmedeiros1959

Quando chega meados de novembro e os primeiros cajus aparecem, eu entro oficialmente no ritmo do Natal. Porque aprendi na infância, sob efeito da memória olfativa e afetiva que a melhor festa do ano tem cheiro de caju. E sigo um rito de ouvir quase que diariamente, ou noitadamente, canções natalinas, de preferência as mais tradicionais da indústria norte-americana.

E se necessário for identificar um gatilho para tal costume, volto aos anos 1960 no som dos rádios valvulados que tocavam músicas de Natal e algumas eruditas e religiosas nas salas das casas em que morei na Cidade Alta e em Santos Reis. Mas foi pouco tempo depois, já na década de 1970, nas Quintas, que o gosto acentuou diante de um LP rodando na radiola de uma vizinha.

Algum viajante, voltando da América (assim diziam os adultos naquele tempo), trouxe de presente um disco da cantora Brenda Lee cantando músicas natalinas. Muitos anos depois descobri que aquele vinil era um álbum de 1964.

E foi ali, ouvindo a cantora que foi fenômeno adolescente no tempo do LP, que passei de fato a ser um fiel consumidor de músicas natalinas. O tempo passou voando como renas mágicas e nos 1990 eu comprei aquele disco num sebo.

Com o advento da internet e a grande invenção humana chamada YouTube acelerei mais meu gosto e passei a ficar horas e horas de novembro e dezembro ouvindo os clássicos natalinos de ontem e de hoje, e de sempre.

Estou contando isso não apenas por estarmos vivendo a estação do Natal, mas principalmente para louvar a figura da cantora Brenda Lee (não confundir com um célebre travesti brasileiro) que nesta quarta-feira está fazendo 80 anos.

E antes de mais nada, lembrar o feito extraordinário que ela obteve ao gravar o hino natalino “Rockin Around the Christmas Tree” aos 13 anos, em 1958, e depois, aos 78, em 2023, ascender a canção ao primeiro lugar do Hot 100.

Para referenciar isso, a rara situação de uma música liderar as paradas seis décadas depois de lançada, basta dizer que o hit chiclete “All I Want For Christmas Is You”, de Mariah Carey, passou vinte anos para ser o número um.

Brenda Lee surgiu como um cometa de saia rodada no lugar da cauda de gases, uma pequenina diabinha de voz estridente que chamou a atenção da poderosa gravadora Decca, aquela que ignorou quatro garotos de Liverpool.

Com nome batismal Brenda Mae Tarpley, nasceu em Atlanta, em 1944, numa casa tão pobre quanto os presépios. Abriu o berreiro musicalmente aos 5 anos e com 10 apareceu na TV, já que desde os 8 atuava para ajudar sua família.

Foi aos 11, após três natais sem o pai, que adotou o nome Brenda Lee, gravando aos 12 a canção “Dynamite”, um rockabilly. E bastou para a indústria fonográfica – leia-se rádios e produtores – batizá-la de “Miss Little Dynamite”.

Nos anos que a Bossa Nova estava nascendo no Brasil (e eu também), Brenda Lee se tornava uma lenda juvenil, uma “enfant terrible” de uma geração de cantores adolescentes em que apenas ela representava a essência feminina.

Durante os primeiros anos da década de 1960, ela acumulou uma sequência de 12 hits no Top 10 da Billboard, um luxo conferido a quatro nomes lendários naqueles tempos: The Beatles, Elvis Presley, Ray Charles e The Supremes.

Na distância entre aquele velho LP na ruazinha das Quintas e os inúmeros canais no YouTube, repletos de músicas natalinas, eu respiro uns sessenta natais com cheiro de caju e ouço Brenda Lee resistindo ao balanço das horas e embalando as saudades que se renovam.

Fator Trump Reboliços estranhos na geopolítica, clima de guerra fria entre nações, economia em ritmo de gangorra. É o mundo dividido em duas afirmações: “Não faça isso que Trump está chegando” e “faça logo antes que o Trump chegue”.

Risco Um idoso de 80 anos internado por quatro ou cinco dias numa UTI depois de se submeter a uma cirurgia intracraniana para conter uma hemorragia cerebral. Não há boletim médico que garanta que este paciente esteja passando bem.

Adesão Em 1964, a TV Globo apoiou o regime militar desde a primeira hora em troca dos milicos imporem dificuldades à TV Tupi. Agora, pelos mesmos motivos, está apoiando a regulação das redes sociais promovida pelo governo e o STF.

Absurdo Quem deveria escudar a Constituição a está perfurando. O ministro Dias Toffoli disse em relatório que o Artigo 19 da Lei do Marco Civil “é inconstitucional”. É exatamente lá que se garante a liberdade de expressão e proíbe-se a censura.

Complicou A mudança de poder na Síria é um revés imediato para o Irã e a Rússia, que davam sustentação à ditadura Assad. Sem Hamas e Hezbollah de auxílio, o Irã se isola, enquanto que a Rússia deve perder o acesso ao Mar Mediterrâneo.

Parceiros A nova conjuntura síria e o desmantelamento dos dois grupos terroristas são um perigo ao regime iraniano. E sem o Mediterrâneo a Rússia tem novo problema além Ucrânia. A coisa não está fácil para os dois aliados do Lula.

Taxação Acredite se quiser. Mas o deputado federal Marcel van Hattem (Novo-RS) está denunciando que a bancada do establishment (leia-se PT e STF) quer aprovar o projeto de lei 8889/2017 que taxa as redes sociais e também seus usuários.

Idiotas Perfeito o maestro Júlio Medaglia dizendo que o funk, o rap e o pop são os gêneros mais democráticos, pois qualquer idiota sabe fazer e cantar. Imagine o que dirá o bruxo da Tropicália se ouvir o piseiro, uma bosta que nem gênero é.

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