Nunca é tarde – Tribuna do Norte

Nunca é tarde – Tribuna do Norte
Publicado em 11/12/2024 às 6:18

Cláudio Emerenciano
Professor da UFRN

O manto da noite despontava no horizonte. Um céu melífluo e tênue de cor cinza se dissipava, levando consigo a luminosidade dominante da aurora ao crepúsculo. O menino contemplava aquele instante com um misto de saudade, amargura, temor e insegurança. Caminhava para casa quase no escuro, quando de tudo assomavam sombras enigmáticas e sinuosas. Tropeçava aqui e ali nas pedrinhas da praia, enquanto o mar reclinava-se em “maré seca”, alargando o espaço de “terra firme” com o vai-e-vem de inesperadas ondas frágeis, até pouco tempo retumbantes e enfurecidas. Mas seu espírito se retemperava ao seguir no percurso. Curtira a beleza da paisagem, que o entardecer levara consigo. Anos depois, relembrando aquele anoitecer silencioso de excepcional quietude, na ultrapassagem de um ano para outro.

Não foi possível esquecer o foguetório estrondoso, que eclodia de uma cidade distante à meia-noite. A cena se completava com o sino da igrejinha, emitindo um som fino, mas estridente. Essa era a maneira daquela comunidade também compartilhar do regozijo universal pelo início de uma nova jornada do tempo. Desde então, anualmente, não importasse o lugar onde se encontrasse, tentava identificar o estado de espírito com o qual parte expressiva da humanidade celebra o instante e a circunstância. Imantou-se em seu espírito um questionamento sobre o real e mais abrangente sentido dessa ultrapassagem do tempo. Não lhe foi despercebida que a data decorreu de uma definição arbitrária no calendário cristão e ocidental. Entretanto, varreu o mundo. Tornou-se quase universal. Aglutina povos e culturas heterogêneos, credos religiosos distintos e concepções políticas conflitantes. Nada impede o mundo celebrar o Ano Novo.

Nunca é tarde para a conclusão de uma busca. Sobretudo de natureza espiritual. Inalcançável em termos absolutos. Houve um momento em que Jesus disse ter vindo ao mundo para revelar o Pai, ou seja, Deus, Criador do Universo. E acrescentou que Deus é Espírito. Mas qual é a essência de Deus? O que Ele enfeixa? Sobretudo amor e paz. A paz é um dom de Deus. Plasmado na alma de cada um. Aspiração e sentimento. Caminho da verdadeira civilização. Sem supremacias nem submissões. Vontade de todos os povos, que almejam desfrutar de liberdade, justiça, bem-estar, dignidade, desenvolvimento e saber. É o meio, o instrumento e o objetivo de ascensão da humanidade na convivência eterna com Deus – disse Teilhard de Chardin –. O verdadeiro bem resulta da paz reinante nos corações dos homens.

Os rostos de todos os homens. O olhar terno de uma criança e as feições suplicantes de um ancião. A perspectiva do futuro e a contemplação do passado. Todas as idades convergem para o sentido da paz. Que se abriga, por exemplo, nas casas dispersas na vastidão dos campos. Onde luzes, à distancia, na escuridão da noite, parecem revelar o universo de sentimentos dos seus habitantes. Os sonhos. Os encantamentos. As esperanças. As promessas cumpridas, desfeitas ou renovadas. Os gestos e atos de amor. A doação de uns pelos outros. A disponibilidade para renunciar em favor de outrem. O ambiente de paz dos simples e humildes de coração.

A ação original e humana: a divisão do pão de uns com os outros. A solidariedade, alegrias e tristezas, convertendo uma comunidade num só corpo e num só espírito. A busca em todos da felicidade. Que existe sem convalidar desvarios de poder, violência em múltiplas formas, mentira e hipocrisia. E, assim, ao usufruir dessa paz, tornar cada ser humano parte de uma pátria, de uma civilização, de uma concepção do mundo e da vida: “Eu vos deixo a paz, Eu vos dou a minha paz”.

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